Por Vivien Merciel Suarez
Em tempos de epidemia da solidão e adicção em telas, os clubes de escrita e leitura têm sido lugares de reconexão entre ideias, lugares e pessoas a partir do analógico.
Alinhado a esse propósito, no Dia Internacional da Mulher de 2025, o clube de escrita Amora Portugal iniciou as suas atividades. Com frequência mensal, o projeto começou na Livraria Inquieta, no bairro Campolide, em Lisboa, mas hoje também promove encontros em Cascais. Para além de um espaço para escrever as nossas narrativas e compartilhá-las com as colegas, a territorialidade deste projeto trouxe fricções para a nossa lusofonia e também acabou por promover a integração cultural entre escritoras portuguesas e brasileiras (e até uma belga veio se juntar ao grupo).
Ao longo do processo, pudemos perceber as palavras do português lusitano que fomos incorporando à nossa escrita, e as escritoras portuguesas também partilharam as suas percepções sobre a distinção entre as nossas formas de falar sobre os afetos, o que trouxe camadas para a escrita que atravessam raízes e culturas.
A palavra também foi ponto de conexão entre as experiências dos nossos corpos. Afrontamento. Foi a palavra que veio à tona no primeiro dia do nosso primeiro retiro de escrita, que aconteceu em abril deste ano em Ferreira do Alentejo. Em Portugal, afrontamento é o nome dado ao fogacho, às ondas de calor da menopausa. O contato com a palavra abriu um campo para que essa experiência corporal fosse partilhada à sombra das oliveiras do Alentejo.
No final do ano anterior, também passamos pelo desafio de nos dividir em duplas criativas, não para escrevermos em dupla, mas para contar com um segundo olhar na partilha do nosso processo de escrita e de textos ainda em primeiro tratamento. Esse foi um direcionamento que trouxe maturidade para o grupo, maior coesão ao coletivo de escrita e também fez nascer muitas amizades.
Como historicamente nós, mulheres, fomos privadas da leitura e da escrita, e o mercado literário ainda é muito masculino, poder viver em comunidade esse contínuo desenvolvimento como escritoras é uma forma de nos incentivarmos e de apoiarmos umas às outras. De sempre fazer tempo para que a escrita exista em nossas vidas e continue a ser nutrida. De nunca desistir dela ou parar no meio do caminho. De sempre ter uma outra escritora para dar a mão antes que a vida nos diga que esse caminho não é para nós.
O livro, por sua vez, foi consequência dessa mescla. Recentemente, vivemos a experiência de compor uma antologia após quase um ano e meio de atividade da Amora Portugal.
Publicado pela editora Urutau e organizado pela Fernanda Ávila, com 26 contos, este livro é resultado desse nosso percurso e traz a mistura entre Brasil, Portugal e Bélgica. É fruto das vozes de mulheres que cruzaram fronteiras para serem também do mundo e não só da casa. Como este livro é resultado do encontro, o tema dele até aparece no título: Tudo nesse lugar é encontro.
Para escrever os contos, partimos da premissa de que o encontro é o que coloca tudo em movimento. Cada texto traz a sua voz autoral, o que permite que cada história encontre a sua singularidade no conjunto de textos. Ao final do mês, teremos o primeiro contato com o objeto livro, já na ocasião do seu lançamento, na Feira do Livro do Porto, sendo também a primeira publicação de algumas das escritoras que o compõem.
Tudo nesse lugar é encontro e a escrita segue a abrir caminhos, construir pontes e mover mundos para que cada vez mais mulheres leiam, escrevam, publiquem e sejam lidas.
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