por Vivien Merciel Suarez
Você se lembra de como foi a primeira vez em que leu poesia? Ou da primeira vez que tentou escrever um poema? Eu me lembro de que o meu primeiro contato com o universo poético foi na escola, já que esse capital cultural não vinha no pacote do meu berço de família. Como estudei em escolas religiosas, hoje percebo que a religião tem de fato a sua influência na curadoria e no currículo, e reconheço que as minhas primeiras experiências com poesia não foram boas. Como acontece com muitas pessoas quando o assunto é teatro, ópera ou arte contemporânea.
A fruição artística é um direito, entretanto, os bens culturais não são distribuídos de maneira equitativa. E passam também pela questão do acesso: nem sempre uma atividade ou ambiente cultural que sejam gratuitos serão convidativos ou acolhedores para todos. Quando falamos em formação de público, de qualquer das expressões artísticas, é importante ter em mente a necessidade de proporcionar experiências agradáveis às pessoas quando em contato com um ativo de cultura em questão. Isso as leva à vinculação emocional necessária para que queiram voltar a ter contato com esse ativo, seja ele a poesia, o teatro, as artes visuais, o cinema, a música ou de qualquer outro tipo.
No meu caso, posso dizer que sou leitora e o hábito de ler, com o tempo, foi fazendo de mim uma escritora. Tive acesso aos bens culturais ao longo da minha formação e hoje me sinto confortável em ambientes dedicados a eles, entretanto, reconheço que nem sempre foi assim. Isso foi uma construção gradual. Ainda assim, apesar desse percurso, me considero uma leitora de poesia em formação.
Percebo o quanto as pessoas, muitas vezes, têm vergonha de admitir que não gostam de uma determinada expressão estética ou que não a compreendem, pois esse tipo de declaração as pode fazer parecer ignorantes. Entretanto, a educação formal ou o arcabouço cultural de uma pessoa não são garantias de que ela consiga alcançar a fruição estética dentro de uma determinada linguagem, como é o caso da poesia.
Em vez de ter vergonha de admitir as nossas limitações diante de um tipo de expressão artística pelo medo de parecermos incultos, ao contrário, deveríamos estimular que as pessoas se sentissem à vontade para falar abertamente sobre isso. Apenas assim será possível qualquer tipo de diálogo que permita pontes para que a disponibilidade desses bens culturais se converta de fato em acesso.
As poesias que me foram apresentadas na escola, por exemplo, falavam em grande parte sobre um universo romântico idealizado que me interessava muito pouco. Isso me deixou pouco curiosa para buscar outras referências ou investigar a linguagem por trás das construções poéticas. Mais tarde, com outras demandas da vida, a poesia nunca veio a ser uma prioridade, entretanto, na altura, a prosa já tinha ganhado o seu espaço. O lugar inalienável da prosa em minha vida só foi possível graças às boas experiências que tive desde cedo com esse tipo de escrita, sobretudo com as crônicas que sempre li em jornais. Leitura, por sua vez, influenciada pelo meu tio que me criou. Não à toa, hoje a crônica é o que mais escrevo.
Diante desse percurso, eu poderia passar o resto da minha vida longe da poesia, mas ela voltou a mim pelo caminho do afeto: nos cursos de escrita e eventos literários, fui fazendo amizades com outras autoras, e muitas delas eram poetas. O carinho nutrido pelas minhas amigas fez com que eu quisesse lê-las, compreender os seus estilos de escrita e também vir a promover os seus livros.
Hoje, já adulta, a vinculação emocional com a poesia que não me atravessou pelas vias formais acabou por se instaurar em minha vida a partir das minhas amigas. É sempre uma grata surpresa viver algo pela primeira vez depois que já somos adultos, como a declaração de amor não intencional de aprender a amar uma linguagem porque alguém que amamos a amou primeiro. Por sua vez, isso acaba por ilustrar o quanto somos constituídos não apenas pelas nossas experiências formativas, mas sobretudo pelos nossos vínculos.
Sou uma leitora de poesia em formação e, a cada novo livro de poesia que leio de uma amiga, me sinto mais confortável diante desta linguagem e começo a finalmente treinar o meu olhar para contemplá-la, a construir os recursos necessários para acessar a fruição poética que para mim nunca existiu. Da mesma forma, penso em tantas outras pessoas que possam estar privadas da fruição literária ou também de todos os outros tipos de fruição estética. Esse meu percurso poético em construção me trouxe, por fim, a esta reflexão: não basta que um ativo cultural esteja disponível para que ele seja acessível, cabe embebê-lo no afeto que, entre nós e ele, tece a sua costura.
“Não me compadeço
pelas feridas salgadas
nem tão-pouco me ergo
para as lamber
remeto-me às virtudes sem freio
da mão que não repousa sem antes abraçar
o cansaço dos cabelos cobertos de preocupação”
Trecho de “Sal nas feridas”, de Carolina Carinhas.
...
“Escolhi mergulhar, desaprumar naufragar para saber o mar
e quando enfim eu tive o mar destemida resolvi ficar morar nas águas
transbordar sem palavras
afogar de vez a mágoa salgada
até saber que o mar vai além da morada
e nunca havia saído de mim.”
Trecho de Água de Palavras, de Julia Sereno
