por Vivien Merciel Suarez
Uma virada de chave fundamental no meu processo de integração como imigrante brasileira em Portugal foi começar a me engajar na escrita e na leitura. Como uma coisa puxa a outra, a literatura foi me conduzindo a derivas que me conectaram a pessoas, projetos e novos rumos deste lado do Atlântico.
Na leitura, me tornei frequentadora assídua das bibliotecas municipais portuguesas. Na mesma época, uma das minhas escritoras contemporâneas favoritas, a Aline Bei, estava a participar de um encontro on-line num grupo que eu ainda não conhecia: o Escrita Matinal. Participar desse encontro avulso trouxe consequências drásticas para a minha trajetória: comecei a frequentar o Escrita, desenvolvido pela escritora Liana Ferraz, e sigo por lá desde então.
Reconheço que provavelmente não teria ousado começar a escrever antes dessa conjunção de fatores. A gente olha a vida em retrospecto e parece que uma coisa desbloqueia a outra, como num videojogo, em que só quando “passamos de fase” conseguimos acessar o que vem depois. Nesse caso, foi no Escrita Matinal e na Aline Bei que eu encontrei a autorização interna para este atrevimento que é o ato de escrever.
Nesse processo, também em 2024, soube que a escritora Paula Gicovate estaria a conduzir uma oficina aqui em Portugal. Como admiro muito o trabalho da Paula e não é todo dia que conseguimos ter acesso a oficinas com as nossas escritoras deste lado do mundo, não pestanejei ao tomar um ônibus do Porto para Lisboa e participar do encontro que aconteceu na Well Well.
A sessão me levou a conhecer a Amora Portugal, coletivo de escrita que me acolheu cá em Portugal e que acaba de lançar a antologia Tudo neste lugar é encontro, publicada pela editora Urutau e organizada pela Fernanda Ávila. Além de ser uma escritora incrível, a Fernanda conduz os nossos encontros, nos estimula a perseverar na escrita e faz a Amora acontecer.
A partir da oficina que aconteceu na Well Well com a Paula Gicovate, tive a oportunidade de conhecer a Dani Pierre, que conduz o clube literário Vilarejo. Conheci o trabalho da Dani mais de perto e me encantei com o seu estilo de mediação literária ao participar de sessões de seu clube de leitura em Cascais, em Lisboa e também no on-line, para pessoas em qualquer lugar do mundo.
No primeiro almoço que tive com a Dani após uma sessão do clube de leitura em Lisboa, ela me compartilhou esse sonho: levar os clubes de leitura ao sistema prisional português. Muito inspirada no projeto brasileiro Remição em Rede, que atua desde 2017, no início deste ano a Dani conseguiu fazer acontecer.
O que parecia distante na época veio a tomar forma com um primeiro encontro em fevereiro e, desde então, me engajei como voluntária do Vilarejo Social, que tem como unidade piloto o estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos.
Este projeto objetiva, para além de promover a formação de leitores em contexto prisional em Portugal por meio de clubes de leitura mediados, contribuir para a humanização do sistema prisional e para a reinserção social das pessoas em reclusão, permitindo a elas a fruição e a elaboração de seus sentimentos e da vida a partir da literatura.
A curadoria é feita pela equipe de voluntárias, sempre com um olhar para a bibliodiversidade, as temáticas abordadas, o potencial de engajamento na leitura e os múltiplos olhares de autores de diferentes países. Até o momento, temos priorizado trabalhar com escritores da língua portuguesa, dos países que compõem a CPLP — Comunidade de Países de Língua Portuguesa.
A primeira unidade prisional contemplada pelo projeto é a de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, no Porto. Os encontros são realizados com frequência mensal na ala feminina desta unidade durante o horário das aulas de português, já que as reclusas têm atividades na escola que funciona dentro da unidade prisional.
Começamos pela escritora brasileira Carla Madeira, com o livro “Tudo é rio”, passamos pela escritora portuguesa Isabela Figueiredo, com o livro “A gorda” e, na sequência, levamos o livro “Os da minha rua”, do escritor angolano Ondjaki. Por fim, concluímos o primeiro semestre de atividades do Vilarejo Social com os livros “A palavra que resta”, do escritor brasileiro Estênio Gardel, e “Luanda, Lisboa, Paraíso”, da escritora portuguesa nascida em Angola Djaimila Pereira de Almeida.
A partir de parcerias com as editoras e suporte dos autores, temos conseguido viabilizar a aquisição de um livro por participante, para que elas mesmas também desenvolvam a sua relação não apenas com a leitura, mas também com o objeto livro. Hoje o clube recebe em torno de 35 leitoras por sessão.
Até o momento, este projeto se sustenta a partir de contribuições voluntárias da sociedade civil, a partir do programa “Adote uma leitora”, e do trabalho das voluntárias que compõem a equipe. No final de outubro, o Vilarejo Social inicia uma segunda rodada e, pouco a pouco, vai encontrando os seus recursos para fazer com que o projeto seja sustentável. A garantia de direitos culturais e a reintegração social de pessoas em privação de liberdade é o que nos move. Os livros precisam circular e chegar também àqueles que precisam encontrar na literatura um caminho de encontro e de dignidade.
