por Vivien Merciel Suarez 

 

“Esta postura não combina com uma escritora”

Um pouco antes de ir ao Brasil para lançar o meu primeiro livro, postei uma foto de carnaval dos tempos de pernalta com o intuito de mobilizar a minha rede e avisar que estaria por lá. Linda, leve, sorrindo de braços abertos nas alturas, entre outros foliões e pernaltas e vestindo um body frente-única. Foi uma foto publicada na Folha de São Paulo em 2022, quando, finalmente vacinados, tivemos dois carnavais após o confinamento e os lutos impostos pela Covid-19.

Lembro-me até hoje da sensação de liberdade de enfim voltar às ruas, dispensar as máscaras e voltar a ver como eram os sorrisos sob a marquise dos olhos dos outros, abraçar pessoas só porque dava vontade, deixar de lado o álcool gel e beijar as mãos de outros colegas que também estavam sobre as pernas de pau. De certa forma, celebrar o meu primeiro livro com o resgate dessa foto, após quase quatro anos sem viver um carnaval no Rio de Janeiro e três anos como imigrante, sem mais subir numa perna de pau, me reconectava com a vida que existiu antes dessa grande transição.

A foto gerou duas frentes de ruído que confesso que me surpreenderam: os que me conheceram antes das publicações e da escrita, que estranharam conectar a imagem do passado com “a escritora”, e os que sentiram o estranhamento reverso, pois só me conheceram depois da escrita e da imigração, com muitas camadas de roupas e com os carnavais já bem longe de mim.

Na incredulidade de não conseguir ligar a imagem à pessoa, um desses sujeitos da minha vida pós-escrita e imigração veio me escrever no privado com o intuito de zelar pela minha imagem e reputação: “Esta postura não combina com uma escritora”. Pelo diálogo que decorreu após essa afirmação, me pareceu alguém genuinamente assustado com o contraste entre a imagem de referência sobre mim, “a escritora”, e a imagem que via nos stories, a “vedete voadora”, uma foliã de maiô e purpurinas sobre pernas de pau a ocupar as ruas num momento de fruição coletiva. Mas será que a minha escrita só pode ter credibilidade se eu só for vista de blazer e em eventos culturais ou literários?

Aquela conversa fez com que eu me sentisse como se alguém me puxasse num canto durante uma festa para me avisar de um brócolis preso no meu dente: o outro aponta a tua inequação no privado “para o teu bem”, para que você consiga ter tempo de reverter o ruído, de passar num banheiro e tirar aquilo dali antes que mais pessoas também o vejam.

Claro, essa pessoa “gentil” era um homem. Para a minha surpresa, um outro brasileiro, entretanto, que nunca esteve no Rio de Janeiro e que vinha de uma região do nosso país que não tem o carnaval como uma tradição. O hiato de referências agravava o estranhamento. Há também uma camada contextual: sendo ambos brasileiros em Portugal, seu discurso trazia a preocupação com a maneira como os homens portugueses entenderiam essa minha postura e veriam a minha escrita após essa imagem, considerando que sou uma mulher brasileira que escreve para um veículo de comunicação português e que ainda há muito estigma e estereótipo em torno das nossas mulheres.

Embora essa minha comunicação não fosse dirigida a esse público que lhe causava preocupação e eu entendesse o tom zeloso da advertência, a consciência de “onde se está a pisar” não suavizava a censura que eu sentia. Por uma série de razões estruturais, já é tão difícil que nós, mulheres, consigamos dedicar tempo à nossa escrita e, quando o fazemos, ainda temos de superar a síndrome de impostora. Essa, por sua vez, acaba por promover uma autocensura que antecede a coragem de fazer com que os nossos textos venham a circular.

Feito tudo isso, ainda é esperado que assumamos o compromisso de só vivermos a fruição de forma clandestina, sem deixar rastros na vida pública, ou dentro dos contextos igualmente dedicados à cultura, à leitura e à escrita. Ainda assim, assumir esse compromisso significa ter de sustentar uma figura pública impecável e abrir mão de todas as outras identidades que coexistem com “a escritora”, bem como das demais experiências que nutrem o escrever? Isto é um ofício ou um sacerdócio? 

Refuto a ideia de que uma escritora não pode ser também uma flâneuse, uma figura que desfruta da liberdade do espaço público, que o ocupa com o seu corpo, em detrimento de regras e expectativas sociais restritivas, sobretudo do ponto de vista de gênero.

Os homens escritores já fazem isso desde antes de verterem a primeira tinta sobre o papel e não foi à toa que a figura do flâneur foi tão popular e rendeu tantas histórias durante o século XIX, pois a nossa vida é a matéria da nossa escrita, e embora ter um teto todo nosso seja uma condição que torna a escrita sustentável, as janelas deste quarto para o mundo têm de estar abertas.

O confinamento entre as paredes desse quarto todo nosso acaba por nos silenciar de outras formas, já que o corpo no mundo e a fricção com outras trajetórias, ideias e lugares são parte do que nos leva a boas histórias. A gente não é da casa: a casa é nossa e nós somos do mundo.

Parte da dificuldade de ser uma escritora flâneuse está no fato do nosso corpo no espaço público nunca ser só nosso: ele nunca é só campo de experimentação e ponto de partida da observação, já que é sempre observado, julgado e policiado pelo olhar de um outro (que na maior parte das vezes é um homem). A nossa escrita e os nossos corpos podem e devem reivindicar a ocupação do território e a fruição desses espaços a partir do nosso sentir, sem que isso descredibilize a nossa posição como escritoras.

Recentemente ouvi de uma PhD que, quando apresentava os trabalhos acadêmicos usando gloss, chamavam-lhe a atenção, pois isso gerava uma conotação erótica à sua figura. Outra amiga fez uma foto no lançamento de seu novo livro com um exemplar numa mão e uma tulipa de cerveja na outra, o que também é considerado não expectável para uma escritora. Afinal, qual o tamanho do abismo entre o que pode o corpo de uma escritora e o que é expectável desse corpo pelo fato de ele ocupar um lugar na literatura, historicamente dominada e regulada por homens? Qual o incômodo que os nossos corpos geram ao escreverem a partir do olhar do deslocamento e da errância e não do lar e dos trabalhos de cuidado? E por que é tão incômodo que estejamos mais interessadas em experienciar o mundo e escrever sobre ele a partir do nosso ponto de vista (em contraste com a aceitação das narrativas do “sujeito universal”) em vez de estarmos disponíveis para a economia do cuidado e do prazer (do outro)?

A postura que combina com uma escritora é a de saber quando desobedecer o status quo, pois, se a experiência é a matéria da escrita, controlar o corpo da escritora é também uma forma de controlar o material sobre o qual ela pode escrever. Controlar o corpo é controlar o arquivo. E a quem serve um silenciamento de arquivos? Como disse a filósofa Rosa Luxemburgo, “quem não se move não sente as correntes que o prendem”, e é o nosso movimento que nos faz acessar novas experiências e dar voz a outras narrativas sobre as nossas trajetórias e sobre os nossos corpos. Sozinhas ou em bando, mulheres, flanemos.