Entrevista com Socorro Acioli
Entrevista com Socorro Acioli

Entrevista com Socorro Acioli

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Blog - Escritoras
- 14/03/2022 16:15:44

Socorro Acioli é jornalista, professora, doutora em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense e uma grande escritora. Sua narrativa traz elementos e histórias que fazem parte do imaginário coletivo brasileiro, mais especificamente do Ceará, onde nasceu, e de outros estados do Nordeste, de onde vieram seus pais e avós. Autora de 18 livros infantis e juvenis, já foi vencedora do Prêmio Jabuti e traz no currículo uma oficina ministrada por Gabriel Garcia Márquez na Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba, em 2006. Na época, o curso era fechado apenas para 10 convidados do autor. Porém, naquele ano, apenas nove pessoas foram indicadas. Para concorrer à vaga que havia sobrado, Socorro apresentou uma proposta de história resumida que resultou no livro A cabeça do santo, seu primeiro romance para o público adulto, publicado em 2014 pela Companhia das Letras. 
 

Nessa entrevista, Socorro Acioli fala sobre suas principais referências e influências, conta como surgiu a história desse livro, de como ela enxerga o papel da literatura na cultura de um povo e sobre a importância de lermos mais mulheres. Além de dar algumas pistas sobre o novo romance, Oração para desaparecer, que será lançado ainda esse ano. 

A cabeca do santo


A cabeça do santo foi seu primeiro romance dirigido ao público adulto. Pra você, qual é a diferença entre escrever para adultos e para crianças? 

Esse livro começou porque eu vi que a história de A cabeça do santo existe. Esse santo com a cabeça no chão e incompleto, no alto do morro, existe e está na cidade de Caridade. Num primeiro momento, pensei em fazer uma história para jovens, porque eu tenho uma carreira com 18 livros publicados para crianças e jovens, tenho um prêmio Jabuti de literatura infantil, tenho mestrado em literatura infantil. Tenho essa trajetória e pensei em fazer uma história para jovens porque eu sempre soube que seria um personagem engraçado, um personagem que não era um beato ou religioso, uma pessoa que escutaria os pensamentos do santo. Só que os temas e as questões que foram se impondo, sobre relações amorosas, de engano, de trapaça, de roubo, uma questão política que é forte na história do livro e que determina tudo e justifica porque a cabeça não foi concluída, fugiam desse universo infantil. Por causa desses temas, fui mudando para outro olhar e isso muda o vocabulário, muda a linguagem, muda tudo. Não que não se possa falar de morte para criança. Você pode falar de tudo porque as crianças estão vivendo e habitando no mesmo mundo que a gente, onde essas coisas estão presentes e essas coisas precisam ser ditas. Eu sempre acho que o que não é dito volta em algum momento transformado numa dor muito maior. E o curioso é que nas versões americana e inglesa, o personagem diminuiu a idade e é um livro vendido para jovens adultos. 

Em várias resenhas, seu livro é classificado como uma obra de realismo mágico. Você também encaixa a narrativa nessa categoria? Pode falar um pouquinho sobre isso? 

Quando o livro foi divulgado, as resenhas destacavam que o livro surgiu de uma oficina com Gabriel Garcia Márquez. Mas a oficina durou uma semana e eu passei sete anos escrevendo o livro, então pouca coisa saiu da oficina, na verdade. O enredo do livro foi o meu passaporte para estar com Gabriel Garcia Marquéz seis dias da minha vida e foram inesquecíveis, mas eu fiz o maior trabalho depois. É óbvio que tem a influência do realismo mágico e dele. Mas, ao mesmo tempo, essas histórias das relações das pessoas com os santos e os milagres são comuns e corriqueiras no interior do Ceará. E os meus parentes de primeiro, segundo e terceiro grau são todos nordestinos, tenho avós e avôs da Paraíba e do Rio Grande do Norte e moro no Ceará. Eu cresci ouvindo sobre milagres, aparições e situações sem explicação. A história do meu livro que ganhou o Jabuti, de uma menina que toda vez que chora, começa a chover, era a minha avó que contava. Então, é sim uma influência do realismo mágico porque eu li muitos autores, sobretudo Gabriel Garcia Márquez. Mas, ao mesmo tempo, eu reconheço todas essas situações na realidade do sertão nordestino.
 

Pode nos contar um pouquinho sobre quais são as suas maiores referências e inspirações na literatura? 


Tem tanta gente! O García Márquez sempre. Ele tem um lugar fixo e tá sempre voltando quando eu preciso. No momento estou lendo João Cabral de Melo Neto de novo. Eu já tinha uma obra completa dele e agora ganhei outra edição. Gosto muito da Adília Lopes. Tô lendo muitas poetas contemporâneas e muitas autoras mulheres. O José Eduardo Agualusa também é uma referência importante para mim, assim como a Djaimilia Pereira de Almeida, uma contemporânea portuguesa. Esse livro dela, A Visão das Plantas, foi transformador. Também tem o Ítalo Calvino, o Raduan Nassar… muita gente! 


Como você vê o papel da literatura na relação de um povo com a sua cultura, origens e como isso se reflete no desenvolvimento da sociedade? 


O papel da literatura na relação do povo com a cultura é fundamental, é central. Até porque acontece muito da literatura ser a base criativa narrativa para adaptações audiovisuais. A gente está num momento muito forte do audiovisual, com produções nacionais, adaptações para cinema, para série. Houve uma diminuição das salas de cinema, infelizmente, mas há um aumento importante das opções de streaming. E isso é bom porque chega num período em que o mercado audiovisual precisava desse espaço, já que até então se sustentava das iniciativas e dos incentivos públicos e o governo fechou as portas para a cultura. Mas a literatura continua sendo central e não sendo ao mesmo tempo. Ela é central em importância e em lugar, porque a gente vive o tempo inteiro permeado de palavras, o nosso universo é construído de palavras conscientes e inconscientes e a literatura é uma extensão disso. Mas é muito triste saber que o acesso a essa literatura é cada vez mais difícil pelo preço dos livros, pelos problemas da educação, pela pandemia, pela formação precária dos nossos professores brasileiros e pelo próprio desconhecimento mesmo, do que é literatura. O que é narrativa? O que é um bom texto? O que é um texto literário? São perguntas tão difíceis de responder no senso comum e, por isso, esse acesso fica mais difícil. Eu trabalho com literatura em várias posições: como professora, como escritora, como mediadora, às vezes como crítica, às vezes como cronista. Então a gente vai se alimentando de esperança, das coisas boas que vão acontecendo, das iniciativas pessoais e coletivas e vai ficando feliz com cada coisa nova que desponta. Vai se alimentando da esperança de que a literatura um dia vai ocupar o lugar central que deveria. 
 

O Samuel (personagem central de A cabeça do santo) desenvolve uma capacidade mágica de ouvir as vozes das mulheres. Essa característica não é tão comum na sociedade em que vivemos. Essa ideia de criar um homem que ouve as mulheres foi uma busca proposital? 

Eu nunca tinha pensado nisso. E nunca tinham me perguntado isso, do Samuel como alguém que tem capacidade de ouvir as mulheres. Mas é tão importante. Não foi proposital, de jeito nenhum, mas eu faria propositalmente com certeza, porque isso é uma questão,  esse abismo entre homens e mulheres, essa dificuldade masculina de ouvir, essa surdez seletiva… 
 

Você tem o hábito intencional de ler mulheres? O que acha desses movimentos que promovem a leitura de narrativas escritas por autoras? 


Eu procuro ler mais mulheres sim. Isso é intencional. Eu recebi o livro da Marcela Dantés, Nem sinal de asas, o primeiro romance dela, e estou muito encantada. Fico vibrando quando vejo mulheres escrevendo bem, quando vejo clube de assinatura como a Amora, clube de leitura como Leia Mulheres, selo só para mulheres como o Clarabóia. Concurso só para mulheres, sem etarismo, isso me deixa muito animada. Acho que a gente ficou silenciada por muito tempo mesmo no Brasil, foi muito sufocada por vozes masculinas, por um ponto de vista masculino branco, hétero. Como se a vida pudesse ser vista unicamente por esse prisma. A vida tem conseguido ser mais plural na literatura agora e isso tem muito a ver com um olhar feminino. Fico vibrando quando vejo um caso como o da Marcela e de outras autoras que estão aparecendo. O resultado disso tem me dado muita esperança.
 

Que livros você gostaria de ter escrito? 

Gostaria de ter escrito De Amor e Outros Demônios, do Gabriel García Márquez, com certeza absoluta. E eu queria ter nascido com um dom que eu não nasci, que é para poesia. Eu queria ter escrito tudo que a poeta portuguesa Adília Lopes escreveu. Tem outra portuguesa também, a Sophia de Mello Breyner Andresen. O meu dom, o meu caminho, é com a prosa.
 

Tem livro novo vindo por aí, certo? Pode nos contar um pouquinho sobre esse novo projeto? 

É o Oração para desaparecer. Um romance que comecei a escrever quando soube da notícia de uma igreja aqui do litoral do Ceará, que ficou soterrada por uma duna móvel que foi se deslocando com a força do vento, cobriu a igreja e a deixou completamente coberta por 45 anos. Conta a história de uma mulher que aparece num lugar que ela não sabe onde é. Ela foi enterrada viva e, quando é desenterrada, descobre que está em Portugal e não tem memória nenhuma. Então o livro narra essa busca dela para tentar entender o que é ser brasileira, por que ela foi parar lá, o que aconteceu. E, no decorrer do livro, a gente descobre que o desaparecimento tem tudo a ver com o soterramento dessa igreja chamada Nossa Senhora da Conceição de Almofala, que foi construída no século 18, no Ceará, com o dinheiro da coroa portuguesa, com material e mão de obra de escravizados que vieram da Bahia pelo rio Acaraú e também do Povo Tremembé. Eles pegavam os búzios do mar e trituravam para misturar cal, para que essa igreja tivesse o espírito do mar. É uma igreja construída com a força desses três povos que são parte da constituição inicial do povo brasileiro. Isso dá ao livro esse caráter de metáfora. Esse soterramento é uma vingança dos Encantados pelo massacre dos Tremembés, que aconteceu logo depois. A igreja foi eleita para homenagear uma santa que eles encontraram na praia, que os católicos chamam de Nossa Senhora da Conceição e que os Tremembé chamam de Labareda, porque ela parece uma chama de fogo. O romance vai ser lançado esse ano pela Companhia das Letras.
 

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