por Vivien Merciel Suarez
Por manterem viva a discussão sobre narrativas, personagens e o diálogo com a vida como ela é, os clubes de leitura promovem a existência para além do livro. Nos encontros, a partir das subjetividades expressas pelos leitores diante do que foi lido, emergem novos contornos e outras camadas de percepções que muitas vezes vão além do que os próprios autores tinham em mente no ato da escrita.
O automatismo dual do “concordo/discordo” não dá conta de abarcar as ideias que reverberam a partir da leitura da obra, e a mediação literária faz toda a diferença na busca coletiva por um caminho dialógico, em que as divergências de percepções possam coexistir de forma respeitosa e harmoniosa.
Se os clubes de leitura já surtem esse efeito em pequenos grupos, promover esse acesso a mais pessoas em nosso país seria transformador. Com o objetivo de aproximar as pessoas da leitura a partir da acessibilidade que o aplicativo MEC Livros oferece, surgiu o Clube do Livro do MEC Livros, uma iniciativa independente idealizada e mediada pela escritora, comunicadora e professora Luiza Araújo.
Formada em Letras Português e Literaturas pela UFRJ, Luiza realiza a curadoria deste clube do livro e busca escolhas bibliodiversas a partir do acervo do MEC Livros, com o qual vem colaborando como comunicadora desde o início de suas atividades.
Seu olhar para a promoção da leitura inclui a experiência no projeto “Caminhos de Leitura no Rio”, na ocasião do título “Rio Capital Mundial do Livro”, concedido pela Unesco. A pesquisa deu origem a um livro realizado em parceria entre a Editora PUC-Rio, a Casa de Bambas e a Secretaria de Cultura da Cidade do Rio de Janeiro. O livro traz um panorama de bibliotecas, eventos literários, livrarias, sebos e editoras da cidade, ressaltando seus agentes culturais.
Com o intuito de promover inclusão, este clube do livro permite que qualquer pessoa com acesso ao aplicativo do MEC Livros conte também com o apoio de mediação literária e encontros com profissionais especializados nos autores e nas obras do mês. Em sua página no Instagram, o Clube MEC Livros compartilha um cronograma de leitura sugerido para a obra do próximo encontro e também curiosidades sobre o livro e o autor.
Embora o encontro mensal ao vivo possua uma data específica, a discussão se dá a cada semana no grupo de WhatsApp do clube. O grupo é sempre aberto aos domingos para a troca a respeito do que foi lido, respeitando o cronograma de leitura da semana. As inscrições no clube são gratuitas e são realizadas no link disponível na Bio da página. Os encontros ficam gravados e são disponibilizados na página do YouTube do clube.
O primeiro encontro ocorreu em 25 de julho e deu lugar à obra Úrsula, publicada em 1859 e escrita pela jornalista, compositora e professora maranhense Maria Firmina dos Reis, sendo o primeiro romance abolicionista da nossa história e também o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil.
Segundo Luiza, esse livro esteve desaparecido por 100 anos por abordar abertamente a escravidão e o sofrimento das pessoas escravizadas em nosso passado colonial. Luiza recomenda também outras obras da escritora disponíveis no MEC Livros, como a antologia poética “Cantos à beira-mar e outros poemas” (1971-2024), o conto “A escrava” (1887) e a coletânea “Gupeva” (1861), que inclui o romance indianista que leva o mesmo nome.
O próximo encontro será em torno da obra “A uruguaia” (2016), a epopeia tragicômica do escritor argentino Pedro Mairal, considerado um dos maiores nomes da literatura latino-americana contemporânea. A sessão será neste sábado, 29 de agosto, às 9h, e contará com a presença do convidado Igor Ravasco, poeta, tradutor e professor de espanhol e português para estrangeiros formado pela FERLAGOS. Igor viveu 25 anos na Argentina e trará também uma leitura do ponto de vista cultural do país.
O livro de setembro será a distopia “Eu que nunca conheci os homens” (1995), da escritora e psicanalista belga Jacqueline Harpman, um dos mais emprestados no app do MEC livros. No Brasil, a nova edição foi lançada pela Editora Dublinense em 2021, que ofereceu descontos e sorteios para os membros do clube que queiram adquiri-lo. A convidada desta sessão será a Raissa Castro, psicóloga, psicanalista e mestre em Psicologia pela UFJF. Raissa é coapresentadora do podcast Só Ladeira Abaixo e criadora de um clube de leitura sobre mulheres vencedoras do Nobel de Literatura.
A formação de leitores envolve curadoria, mediação e acesso, e esse clube do livro faz da palavra um lugar de encontro que abre novos caminhos para a inclusão em nosso país.
Sobre o MEC Livros
Lançado em abril deste ano pelo Governo Federal, o MEC Livros visa à democratização da leitura e é gratuito, sendo uma biblioteca digital pública oferecida pelo Ministério da Educação. O acervo conta com cerca de 26.000 obras em português, inglês e espanhol e já possui mais de um milhão de usuários cadastrados.
O acesso pelo site ou aplicativo é realizado a partir do CPF vinculado à conta unificada do usuário na base Gov.br, sendo possível realizar apenas um empréstimo por vez, no caso de obra licenciada (com os direitos autorais preservados, fora de domínio público), e até dois empréstimos mensais.
Cada empréstimo possui a duração de 14 dias, sendo possível renová-lo pelo mesmo período de tempo, conforme a disponibilidade de cada título. É possível devolver a obra antecipadamente após a leitura de pelo menos 10% do conteúdo ou encerrar o empréstimo após 90% lido, para que seja liberada uma nova cota de empréstimo para outro título. No caso das obras em domínio público, não há restrições.
