por Vivien Merciel Suarez
Esta Flip foi a maior de todos os tempos, o que trouxe reflexões polêmicas sobre o festival e a sua sustentabilidade. Entretanto, a coexistência de distintos perfis de autores e oradores a se comunicar com o público abriu espaço também para as menores editoras e seus autores e obras. Em vez de entender isso como uma programação que concorre com a outra, confesso que vi beleza ao encontrar, na mesma rua, casas lotadas de leitores que foram atrás dos autores consagrados e, ao mesmo tempo, outras casas com sala cheia de gente curiosa para ouvir autores desconhecidos a debater pautas que chamaram a atenção dos frequentadores. Vi coexistirem o interesse por títulos das pequenas editoras e a avidez que faz disparar o ranking dos mais vendidos de editoras grandes, o que nem sempre é possível. E isso é sobre permitir a coexistência desses espaços.
Confesso que, pela primeira vez, vivi uma Flip que, guardadas as devidas proporções, para mim se assemelhava ao carnaval de rua do Rio de Janeiro, tanto pela festa quanto pela serendipidade dos encontros. Cada um tinha a sua lista de mesas (como geralmente temos as de blocos de carnaval), mas os acasos nos levavam ora até desconhecidos que passavam a ser um novo amigo, ora a “rolês aleatórios” em mesas em que caíamos de “paraquedas” e que nos levavam a conhecer talentos impensáveis. Até as festas disputadas e privadas das grandes editoras se assemelhavam aos camarotes de artistas e famosos da Sapucaí (nesse caso, de talentos literários). Apesar disso, o povo nas ruas não se ressentia por não ter nome na lista e fazia festa por entre as ruas.
Nos meus devaneios, confesso que fantasiei muitas vezes o momento em que finalmente os “Sardinhas Nômades” de Lisboa ou o “Technobloco” do Rio de Janeiro ocupariam as ruas com um cortejo que embalaria todos os corpos dos leitores entre bailes e beijos. Entretanto, no caso do bloco carioca, com a precaução de não correr sobre o chão paratiano de pé de moleque, para que a festa não terminasse numa torção. Tanto riso, oh, quanta alegria, mais de 40 mil leitores no salão, era o enredo que só me fazia pensar em literatura e carnaval. Quando vi os números, não acreditei. Foram mesmo em torno de 40.000 leitores a ocupar Paraty nesses dias de festa (ou folia) literária. Embora alguns saudosos que a frequentam desde a primeira edição digam que “já não é mais a mesma Flip”, o que é natural para um festival que já passou da maior idade, este continua sendo o festival literário internacional mais relevante da América Latina e foi precursora em trazer talentos literários internacionais para o nosso país. De repente, para os próximos tempos da Flip, confesso que amaria uma casa parceira que consistisse só em friccionar as variantes da nossa língua, trazer mais autores dos PALOP para o Brasil e também tecer mais relações com a Galícia e o idioma galego, que forma um contínuo linguístico com o nosso português.
Olhar Paraty lotada (como um bloco de carnaval) a ponto de levar a uma queda de luz trouxe uma provocação imediata à sustentabilidade da feira no território. Entretanto, os grandes eventos literários também deveriam aguçar o olhar para a sustentabilidade do mercado editorial e livreiro: a bibliodiversidade é importante e deve ser estimulada, bem como devem ser abertos os espaços para que os pequenos (autores, editores, livreiros…) coexistam com os grandes, o que pudemos ver nas programações das casas parceiras.
Muitas pessoas reclamaram das filas que tomavam horas, embora alguns tenham dito que até fizeram algumas amizades por conta desse porém. Confesso que não fiz amizade em fila, mas as filas da Flip me renderam bons encontros. Entre uma mesa e outra, em trânsito pelo centro histórico de Paraty, a pausa da fila me permitiu reconhecer alguns rostos familiares que ali estavam em posição de espera, o que rendeu abraços, sorrisos e autógrafos nos livros de ambos. Teve fila até para pegar o drink oficial da cidade, o Jorge Amado, mas a prosa ocupava o tempo de espera e rendia bons brindes literários. Falando em prosa, um brinde à poesia: esta edição fez com que o nome da poeta Orides Fontela vibrasse por cada rua e suas obras circulassem pela feira. Foi curto e intenso, e, como todo o carnaval tem o seu fim, seguimos animados à espera das surpresas da próxima edição, já com o copo de Jorge Amado na mão, a postos para brindar o que nos aguarda.
