por Vivien Merciel Suarez
No último final de semana estive em um evento literário na primeira livraria de Paris especializada em livros brasileiros. A Sabiá Arte & Cultura iniciou as suas atividades há cerca de 4 meses e já mobiliza a diáspora brasileira em Paris e também muitos franceses interessados em música e literatura do nosso país. Na ocasião, fui convidada para apresentar o meu primeiro livro, o Mapas instáveis, e também para participar como oradora na mesa “O direito à palavra: é escritor por aquilo que se escreve ou pelo que se publica?”.
Tive a alegria de conhecer a Deise Ramos, presidente da UEELP France — União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa, e também parte das leitoras que compõem a Association Collectif Lectrices de Paulo Freire en France, que estavam presentes no evento a celebrar os 105 anos de Paulo Freire e também os 30 anos de sua obra “Pedagogia da autonomia”.
Segundo Paulo Freire, patrono da educação brasileira e também criador do método Paulo Freire, capaz de alfabetizar adultos em cerca de 40 horas, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Da mesma forma, durante a conversa, caminhamos para um consenso: já que a escrita precede a publicação, o direito à palavra também a precede.
Narradoras, contadoras de histórias e griottes (as mestras griôs), por trabalharem a palavra no registro da oralidade e não da escrita, também exercem a autoria e o direito à palavra, independentemente de qualquer publicação e sem estarem conformadas nos moldes do que entendemos por “escritora”. Ainda assim, essas profissionais exercem ofícios que nos permitem a efabulação, que, por sua vez, é fundamental para o desenvolvimento da empatia, a construção de significados e a regulação emocional. Apesar da força transformadora do que elas realizam, a publicação ainda é o que pode vir a garantir o direito à posteridade e à memória.
O mesmo se aplica às escritoras que já possuem os seus escritos, guardados em gavetas, arquivos no computador e entre seus cadernos, mas ainda não encontraram as suas janelas de publicação ou as suas casas editoriais. Recursos contemporâneos como os blogs, os e-books e as redes sociais, como o Substack, democratizaram o acesso a ferramentas que permitem a publicação e a circulação dos textos de novas escritoras independentes. Ainda assim, há o desafio de priorizar a escrita em detrimento de outros papéis sociais que são exigidos das mulheres, além da necessidade de romper com a própria síndrome de impostora, um fenômeno muito mais recorrente entre mulheres, em todos os campos de atuação, do que entre os homens.
Durante a nossa conversa, o assunto acabou por trazer para a pauta o Mulherio das Letras, um coletivo literário feminista internacional que reúne cerca de sete mil mulheres no Brasil e no mundo. Para participar, basta se identificar como uma mulher feminista e trazer consigo a vontade de escrever. O coletivo envolve mulheres de toda a cadeia do livro: escritoras, editoras, revisoras, tradutoras, ilustradoras, pesquisadoras, livreiras e muitas mais.
Este coletivo foi fundado em 2017 e, rompendo com o eixo Rio-São Paulo, teve o seu primeiro encontro no Nordeste do Brasil, em João Pessoa (PB), a homenagear a escritora maranhense Maria Firmina dos Reis. A homenageada é a autora de Úrsula, o primeiro romance publicado por uma mulher em nosso país, além de outras obras com olhares abolicionistas e o conto indianista Gupeva, que romperam com as convenções literárias da época.
Uma das primeiras articuladoras do Mulherio das Letras foi a escritora Maria Valéria Rezende, vencedora do Prêmio Jabuti. Em uma de suas falas sobre o Mulherio, disse: “Criamos ali, meio sem querer, um grande agregado de mulheres no mercado editorial”.
Reconhecer que ainda há um abismo entre o direito à palavra e o seu pleno exercício é necessário para criar as condições que permitam uma realidade diferente. Enquanto o direito à palavra ainda não for equitativo e as políticas públicas não forem suficientes para alcançar essa mudança, é a mobilização coletiva que romperá com as convenções que ainda abafam as vozes de tantas escritoras incríveis que ainda viremos a conhecer.
