por Vivien Merciel Suarez
Querida por uns e entendida como uma literatura menor por outros, a crônica é essa janela democrática de fruição literária que permeia as páginas dos jornais. Confesso que, se não fosse a crônica, talvez eu não tivesse começado a escrever. Após passar da fase dos livrinhos infantis, da alfabetização e da leitura de clássicos da literatura brasileira por obrigação escolar, lembro-me com carinho disto: meu tio, leitor assíduo de jornais, já separava para mim os recortes de jornal para que eu lesse as crônicas. E o caderno de cultura. Era quando a literatura “de gente grande” entrava na minha vida como fruição, nos momentos de ócio partilhado em família. E era bem mais agradável do que a literatura como obrigação escolar, por mais que os nossos clássicos sejam um primor. A crônica foi minha primeira forma de contato com a literatura como um prazer.
Vim de uma família não leitora de literatura, o que fazia do jornal essa janela mais próxima de nós num possível encontro com a leitura. Em pouco tempo, o meu cronista vivo favorito passou a ser o Antônio Prata e, na adolescência, virei fã de Martha Medeiros e já passava a semana à espera do jornal de domingo só para lê-la. E li vários textos do Luis Fernando Verissimo sem saber que eram crônicas, mas que absorviam por completo a minha atenção, numa época em que os livros ainda não competiam com os smartphones.
Mais tarde, vim a conhecer as crônicas da Clarice Lispector, do Nelson Rodrigues, do João do Rio e do Rubem Braga. E me espantei quando vim a saber que até Lima Barreto, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade eram cronistas também, afinal, são os autores dos clássicos que lia por obrigação na escola e por muito tempo ouvi que crônica não era “boa literatura”, que era só coisa de jornal. Que bom que os tempos são outros e, pouco a pouco, passamos a olhar de forma mais crítica essas supostas hierarquias literárias. Até hoje o jornal é democrático e, nos dias atuais, os blogs pessoais e plataformas como o Substack permitiram às nossas escritoras uma maior autonomia sobre as suas publicações e circulação de suas obras a um link de distância, sem depender de espaços formais nas janelas de publicação dos meios de comunicação tradicionais.
Clarice Lispector considerava a escrita literária como uma espécie de maldição que salvava, entretanto, dizia que escrever para o jornal a fazia sentir como se estivesse a vender a alma. Na altura, escrever para o jornal era uma escolha profissional menos atrelada ao prestígio do que ao pragmatismo: a coluna no jornal era uma das principais fontes de sustento estáveis para um escritor e dava fôlego financeiro para que outros projetos seguissem em curso. O jornal não deixava nenhum escritor rico, mas garantia uma estabilidade financeira que era impensável no mercado editorial da época.
Ano passado estive no festival literário LeV — Literatura em Viagem, em Matosinhos, e tive a oportunidade de assistir a uma mesa com o escritor português Valter Hugo Mãe, em que ele dizia que via a escrita para o jornal quase como um compromisso burocrático, tipo a regularidade de ir ao médico. Não sentia ali a mesma fruição literária que tem ao escrever um romance, o que, guardadas as devidas proporções, é compreensível. Já na minha última ida a São Paulo, pude tomar um café com o Luca Brandão, o Lucão, e ambos constatamos o nosso amor e orgulho pelo ofício de cronista de jornal. As partes boas e, ao mesmo tempo, sensíveis da escrita de crônicas para o jornal residem na regularidade e na constante atenção do nosso olhar para as miudezas do dia a dia.
A coluna semanal faz da escrita um hábito que não pode ser negligenciado, pois, se há coluna, precisa haver texto. E não há página em branco capaz de amedrontar um cronista que tem um texto para ser entregue e publicado, às vezes no mesmo dia em que ele é enviado ao editor. Ao mesmo tempo, a beleza dessa escrita em pílulas semanais distribuídas publicamente nos jornais está no tempo de alcance aos leitores: como é um texto breve por semana e não uma brochura de um livro inteiro, eles os leem quase tão logo que os recebem, na fila do banco, no trajeto do metrô, na pausa para o café. E, às vezes, até te escrevem diretamente para comentar e trocar impressões.
Essa capilaridade de alcance leitor que uma crônica de jornal tem, para mim, é impagável. E, pouco a pouco, cada cronista vai encontrando também as suas comunidades de leitores, já que a autoralidade é a marca de uma coluna de jornal. As crônicas da Tati Bernardi, por exemplo, estão entre as conversas que mantenho com uma das minhas melhores amizades feitas em Portugal, e também me fizeram romper com uma série de pudores que antes eu tinha ao trazer o “eu” para o texto, algo difícil fugir na crônica. Hoje sou cronista e colunista de um jornal português, o Público Brasil, e assino a minha coluna semanal aos sábados. Quando comecei, essa coluna ainda era quinzenal.
Quando olho a vida e a minha formação literária em retrospecto, amo ter realizado o sonho que, sem querer, o meu tio me plantou na infância: o de ser cronista de jornal, coisa que, na altura, eu jamais imaginei que viria a ter capacidade para fazer. Amo escrever para o jornal e amo a brasilidade desse estilo literário que é tão nosso: a crônica. No cantinho do jornal ou no link do Substack enviado por uma amiga, a crônica é e sempre será esse respiro literário que mora no dia a dia e que é mais gente como a gente.
