por Vivien Merciel Suarez 

O que pode uma escritora quando uma janela de publicação se abre? E se essa janela permitisse também voos para o além-mar? A caminhada até a escrita do primeiro livro e, depois, a sua publicação por uma editora que dê à obra o tratamento merecido e promova a sua circulação e distribuição é uma jornada repleta de desafios. 

Feito isso, ainda há a dificuldade de formar uma comunidade de leitores e fazer com que a obra possa se destacar entre tantas outras publicações igualmente interessantes. Em paralelo, a disputa constante entre a escrita e outras urgências da vida. 

Todos esses percalços fazem com que muitas escritoras nacionais sigam desconhecidas e que suas obras permaneçam com uma presença inexpressiva entre os leitores, muitas vezes circulando apenas entre amigos e nem chegando às livrarias. Se isso acontece no próprio país, o sonho de cruzar fronteiras parece ainda mais distante.

Apesar da complexidade envolvida em colocar um livro no mundo e o fato das mulheres ainda serem menos publicadas e menos lidas, os prêmios literários podem ser um caminho para ocupar novos espaços com a escrita feita por mulheres, como foi o caso de Izabella e Paula. O Prêmio Caminhos de Literatura, que está em sua terceira edição e é destinado a escritores brasileiros de todos os gêneros que estejam escrevendo o seu primeiro romance, foi a vereda que deu espaço e visibilidade às obras das escritoras brasileiras Izabella Cristo e Paula Novais.

O concurso nacional, criado pelo escritor e produtor cultural Henrique Rodrigues, também idealizador do Instituto Caminhos da Palavra, visa descobrir novos talentos da ficção brasileira contemporânea. Embora aconteça em âmbito nacional, a partir das parcerias estabelecidas com Portugal e Angola, o prêmio acaba por atuar como uma plataforma de circulação internacional da literatura brasileira contemporânea e seus autores entre diferentes territórios lusófonos.

Segundo Izabella Cristo, escritora paraense radicada em São Paulo e vencedora da primeira edição com o romance “Mãezinha”, que se tornou um dos livros brasileiros mais comentados em 2025, “O Prêmio Caminhos foi, literalmente, uma abertura de caminhos na minha profissão. Se antes eu era uma escritora ainda desconhecida e à margem da vida literária, depois dele passei a ser reconhecida no meio. Tive meu livro publicado, alcancei leitores, fiz amizades inestimáveis e vivi experiências e trocas incríveis, relações que, tenho certeza, levarei para a vida inteira. Hoje, não sou apenas uma médica que escreve. Sou uma médica escritora. Tenho um lugar.”

Já a escritora mineira Paula Novais, vencedora da segunda edição do prêmio com o romance “Gaiolas de concreto armado”, que foi incluído pelo jornal O Globo nos destaques literários do primeiro semestre de 2026 e vem recebendo atenção da crítica, acrescenta: “O Prêmio Caminhos de Literatura tem um lugar determinante na minha trajetória como escritora. Em razão da premiação, meu romance de estreia, ‘Gaiolas de concreto armado’, pôde ser publicado no Brasil e em Angola por duas editoras que trabalham com grande seriedade e cujos projetos editoriais admiro tanto: a Dublinense e a Kacimbo. Além disso, a credibilidade do curador Henrique Rodrigues e da comissão julgadora permitiu que meu livro chegasse aos leitores e à imprensa, contando com uma importante chancela de qualidade literária.”

 

Para ambas as escritoras, a experiência de serem reveladas pelo prêmio representou a possibilidade de terem um lugar para a sua escrita e iniciarem as suas trajetórias literárias já com o acompanhamento de uma rede editorial, que também lhes permitiu um alcance internacional. O escritor angolano Ondjaki, um dos nomes à frente da editora Kacimbo, acrescenta: “Mantemos o desejo de publicar o livro de Paula Novais ainda este ano em Angola, pela editora Kacimbo. E está igualmente agendada a publicação do romance premiado de 2026. A Kacimbo pretende continuar a estender os laços de uma frutífera e natural (cultural) relação com o espaço editorial brasileiro.”

Nesta edição, além de ser publicada no Brasil pela editora Dublinense (parceira desde a primeira edição) e em Angola pela editora Kacimbo, a obra vencedora também será publicada em Portugal pelo Grupo Infinito Particular, que publica no país autoras como Socorro Acioli, Aline Bei, Carla Madeira e Bruna Martiolli. Segundo João Gonçalves, editor do Grupo Infinito Particular, “A parceria com o Prêmio Caminhos reforça a missão do Grupo Infinito Particular de aproximar Portugal da melhor literatura brasileira contemporânea. Publicamos alguns dos mais relevantes autores brasileiros em Portugal e acreditamos que iniciativas como esta são essenciais para revelar novas vozes e fortalecer o intercâmbio literário entre os dois países.”

Iniciativas como esta permitem o trânsito de novas escritoras no espaço lusófono e fomentam a literatura brasileira no mundo. A pessoa vencedora do concurso também recebe uma mentoria literária com o próprio criador do prêmio, o que permite o desenvolvimento não apenas da obra, mas de quem a escreve. As inscrições são gratuitas e estão abertas até o dia 15 de setembro. Para que a palavra seja capaz de cruzar oceanos, há caminho, resta caminhar.